Capa do livro “Zucked: Waking Up to the Facebook Catastrophe”

Seguindo mais uma indicação certeira do Guilherme Felitti em seu excelente podcast, o Tecnocracia, o review da vez é do livro com o melhor título ever: Zucked 😂
Para quem não se ligou, “Zucked” é uma piada que cruza o nome de Mark Zuckerberg, que é carinhosamente chamado de Zuck, com o termo “Fucked”, que cá entre nós, define bem o nosso momento atual na internet, e boa parte disso é graças às peripécias de Zuck.

Antes de falar sobre o livro em si, vale falar sobre o autor, Roger McNamee.

Foto de Roger McNamee

McNamee é um cara de negócios, mais precisamente, Roger é um investidor.
Ele fundou a Elevation Partners, um famoso fundo de investimento que tinha a participação do Bono (aquele do U2) e que participou de grandes negócios nos anos 2000.
McNamee é daquelas pessoas que presenciaram o aflorescimento do Vale do Silício, e não só isso, também ajudou a construí-lo de certa maneira.
Até aí tudo bem, poderíamos dizer que McNamee é só mais dos figurões do Vale do Silício, porém, McNamee é um pouco mais do que isso, e isso que me chamou mais a atenção.
Além de investidor, McNamee é músico, tendo fundado a Flying Other Brothers e também a Moonalice.
Inclusive, logo no início do livro ele conta que suas habilidades como músico é que abriram as portas para o Vale do Silício e para uma carreira no mundo dos negócios.
Mas o que fez um excêntrico músico investidor escrever um livro sobre os problemas que o Facebook trouxe para a sociedade?
Ao que tudo indica, McNamee também está atento para as questões relaciondas à privaciade, neutralidade na rede e impactos da tecnologia na sociedade.
Mas além disso, McNamee possui um histórico diferenciado e pode falar com propriedade sobre o Facebook e sobre Mark Zuckerberg, pois além de investidor do Facebook, ele também foi conselheiro de Zuck em uma época conturbada da vida do “pobre” Silicon Valley boy.
Os conselhos de McNamee fizeram o Facebook ser o que é hoje. Na época, Zuck negou inúmeras propostas bilionárias e apostou tudo em sua jovem empresa.

O autor salienta em diversos momentos uma certa “genialidade”, se assim podemos chamar, de Zuckerberg.
No mínimo, aquele cara de vinte e poucos anos não era comum, nas palavras de McNamee.
Zuck parecia ter a experiência de alguém muito mais velho, e defendia com unhas e dentes a missão de “conectar pessoas”.
McNamee ainda ressalta que Zuck, apesar de ser o clássico nerd, possuia características que o diferenciavam da grande maioria.
Logo no primeiro capítulo, entitulado “a reunião mais estranha de todas”, McNamee conta que em seu primeiro encontro com Zuck, após uma indagação complexa, Zuck ficou parado pensando por incontáveis minutos, o que gerou um desconforto constrangedor em McNamee.
Essa reunião marcou o relacionamento dos dois, pois abriu o caminho para que Zuck ouvisse conselhos e refletisse sobre o momento que estava vivendo no Facebook.

McNamee conta histórias do vale do silício pré-Facebook e é muito legal ter essa visão de alguém que estava lá.
O que mais me chamou a atenção e me deixou de certa forma até perplexo foi a conexão que McNamee faz na história para nos mostrar que o estado precisa e muito andar junto com o mercado.
É legal ver isso vindo de um capitalista assumido e bem sucedido.
McNamee conta como a invenção do transistor pode nos ensinar muito sobre o mundo da tecnologia.
Quem inventou o transistor foi a Bell Labs. Os pimeiros computadores desenvolvidos pela IBM não seriam possíveis sem os transistors, e se as leis antitrust da época não fossem rigídas o suficiente, a Bell Labs teria monopolizado o transistor, fazendo com que a IBM não tivesse inventado seus primeiros computadores.
Um pouco mais para frente o mesmo aconteceu com a IBM. A Microsoft só conseguiu entrar no jogo por conta das leis de antitrust que impediram o monopólio da IBM tornando possível a Microsoft revolucionar o mundo com os computadores pessoais.
E não é que a história se repete mais uma vez?
A Microsoft passou pelo mesmo processo antitrust, e mais uma vez graças as leis antitrust hoje temos Google, Facebook e todo ecossistema da internet.
O que McNamee nos alerta é que estamos mais uma vez no mesmo ciclo, as gigantes da tecnologia atuais estão criando monopólios que não favorecem a competição e fazem com que mais uma vez as leis de antitrust precisem ser acionadas.
Basta dar uma pesquisada aí que vocês verão a quantidade de processos de Google e Facebook.
Aguardemos.

McNamee critica bastante o modelo de “Move fast and break things” de Zuckerberg e companhia.
Eu concordo 100%, principalmente quando falamos de quebrar sistemas políticos e democráticos, que de fato é o que tem acontecido nos últimos anos.
Essa cultura é tóxica demais e aliada ao fato de que a cultura no Facebook é de que não existem indivíduos, mas sim times, faz com que nunca não se tenha um culpado.

O autor também comenta o escândalo da Cambridge Analytica e todo seu impacto nas discussões sobre privacidade e democracia.
Outro ponto importante é que McNamee é uma pessoa muito influente e ele tem usado esse “poder” para tomar ações efetivas.
No livro ele conta de seus inúmeros encontros e reuniões com representantes do governo americano, grandes empresas, etc, mostrando o seu ponto de vista sobre o impacto da tecnologia na sociedade.
Pelo que vi, ele está indo muito bem, e isso é muito bom para todos.

Concluindo, este é um excelente livro que mostra não só os bastidores da criação de uma das maiores e mais influentes empresas que já existiram, mas também mostra o impacto devastador da mesma.
Com toda sua magnitude, certa ingênuídade em alguns pontos, prepotência em outros, o Facebook é sem sombra de dúvidas um dos maiores contribuídores para o caos total em que vivemos atualmente, onde a pós-verdade é o padrão.
Recomendo fortemente a leitura não só deste livro, mas de tudo que é citado pelo autor ao longo dos capítulos.
Zucked: Waking Up to the Facebook Catastrophe já é um dos meus livros preferidos dos últimos anos 😊